quinta-feira, 24 de julho de 2014

Em busca de gols inusitados e decisivos

O título do Atlético-MG na Recopa ficou marcado pelo sufoco - que contrariou quem previa uma barbada, já que o Galo havia vencido na Argentina - e também pelo inusitadíssimo gol do título, um tento contra assinado por Ayala. O gol sacramentou a vitória do Atlético na prorrogação e derrubou de vez qualquer entusiasmo do Lanús, que ainda ambicionava um empate no tempo extra. Para quem não viu, fica o registro:



Estamos acostumados a ver gols engraçados aqui e ali, mas é raro que eles sejam verdadeiramente importantes, como foi o de ontem. Puxando pela cabeça, lembro do involuntário (e absurdamente decisivo) marcado por Muller, no Mundial Interclubes de 1993: ele pulou para evitar o choque com o goleiro e viu a bola bater em seu calcanhar, e posteriormente morrendo na rede.



Alguém sabe de mais algum gol bizarro que tenha definido título, rebaixamento, vaga em Copa do Mundo ou coisa parecida?

terça-feira, 15 de julho de 2014

Que o respeito definitivo ao futebol alemão seja também um legado da Copa

A Alemanha ganhou três Copas do Mundo entre 1930 e 2010. Na primeira, derrubou Puskas. Na segunda, Cruyff. E na terceira, Maradona.

E ainda assim, aqui no Brasil havia (há?) muita gente que não levava o futebol alemão a sério.

Movidos por um misto de preconceito, patriotismo equivocado e sentimento anti-colonialista, muitos brasileiros se recusavam a acreditar que o futebol praticado pelos alemães é, sim, de qualidade. E colocavam nos germânicos a pecha de retranqueiros, cintura-dura, caneludos e por aí vai. Para coroar o raciocínio, volta e meia apelava-se à seguinte frase: "a Europa é boa apenas na organização; para formar jogadores, ninguém supera Brasil e Argentina".

Opa opa, peraí. Mas peraí MESMO.

Uma parte da frase é até correta. Não deixemos o vexame de 2014 (e os de 2010, 2006...) nos influenciar: o Brasil tem, sim, a mais bonita história do futebol mundial. Ganhamos cinco copas, proporcionamos jogos épicos e somos o berço de gente como Pelé, Garrincha, Tostão, Ronaldo, Romário e, claro, Rivaldo (melhor falar o nome do cara para não ser atacado...).

Agora a Argentina... bem, não se trata de desmerecer o futebol dos nossos vizinhos. É apenas uma questão de enxergar a realidade. Não há nenhuma lógica em afirmar que o futebol argentino é superior - em qualquer aspecto! - ao alemão. A Argentina teve Maradona e tem Messi? Ótimo, realmente um feito impressionante. Mas a Alemanha teve e tem Beckenbauer, Gerd Muller, Thomas Müller, Fritz Walter, o maior artilheiro das Copas, quatro mundiais no currículo, um futebol de clubes excepcional e tantas outras realizações.

Acredito que o tetracampeonato alemão de agora define, com muita propriedade, quem é o segundo maior país do futebol (o primeiro lugar, reitero, é do Brasil). Embora a Alemanha agora tenha apenas empatado com a Itália, é indiscutível que as quatro estrelas alemãs brilham com mais intensidade do que as italianas - não se pode comparar os mundiais de 1934 e 1938 com 1954 e 1974, apenas para equiparar as duas primeiras taças de cada país. Além disso, no somatório geral a Alemanha vence de longe a Itália, devido a sua participação muito maior em finais e semifinais.

Os 7x1 escancararam a superioridade que existe atualmente da seleção alemã sobre a brasileira. E, depois, os mesmos alemães retificaram sua condição de melhor do mundo ao vencer a poderosa Argentina, e abrir sobre os conterrâneos de Maradona uma vantagem que só poderá ser equalizada no mínimo em 2022. Foi uma lição inequívoca do respeito que os germânicos merecem. Aceitemos isso como um bom legado da Copa.
Na foto, um entre tantos espetáculos proporcionados pela torcida do Borussia Dortmund. Porque se o assunto for a festa fora de campo, eles também estão à frente dos argentinos

domingo, 13 de julho de 2014

O fim de carreira transformou Rivaldo de "tímido" em chato

Houve um tempo em que uma frase era repetida quase que de forma unânime: Rivaldo era um craque, um gênio da bola, mas que só não desfrutava mais desse status por ser um cara tímido, feio e avesso a badalações. A sentença fazia muito sentido. O cara comia a bola no Barcelona, já havia destruído aqui no Brasil e prosseguia muito questionado. Não fazia anúncios, não obtinha a verba publicitária de seus contemporâneos Ronaldo e Romário, só pra ficar nesses.

O lance é que o tempo passou, Rivaldo envelheceu, deixou de ser craque e parece que, hoje em dia, quer descontar toda essa frustração dos tempos de "craque não midiático".

A nova dele, como todos já sabem, é o "desabafo" contra Galvão Bueno. Ele disparou em seu Facebook: "Não preciso do seu reconhecimento Galvão Bueno. O povo brasileiro e o mundo sabem da minha importância para a história da seleção brasileira e do futebol mundial. Nunca precisei puxar saco de ninguém da mídia".

O "crime" de Galvão? Até segunda ordem, foi não ter citado o nome de Rivaldo durante a transmissão do jogo de ontem, quando, em dado momento, o locutor da Globo citou jogadores que fizeram história com a camisa amarela. Segundo matéria do UOL Esporte, Galvão falou de Pelé, Garrincha, Didi, Nilton Santos, Tostão, Zagallo, Gerson, Rivelino, Jairzinho, Romário, Ronaldo e também dos "derrotados" Júnior, Casagrande, Falcão, Zico Sócrates. E deixou Rivaldo de fora.

Se foi só isso mesmo - deixo uma ressalva, talvez outra coisa tenha acontecido e não estamos por dentro, sei lá - só há uma coisa a dizer: menos, Rivaldo, menos. Galvão também não citou Gilmar, Bebeto, Zito, Djalma Santos, Marcos, Ronaldinho Gaúcho, tão vitais para a conquista dos mundiais. Também "excluiu" nada menos que os capitães de todas as taças - a saber, Bellini, Mauro, Carlos Alberto, Dunga e Cafu. Gente boa "ignorada" é o que não falta, pois. Longe, muito longe, de ser algo direcionado a Rivaldo.

É curioso ver que a não-exposição da qual Rivaldo desfrutou ao longo de sua carreira - voluntária ou involuntariamente, não sabemos - acabou por ajudar a todos nós. Sim, isso mesmo. Afinal, foi por conta dela que deixamos de saber uma coisa: mais do que tímido, reservado ou discreto, Rivaldo é um baita de um chato. Simples.

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Primeira fase da Copa: viva a zebra, mas... que tal rever os critérios dos grupos?

Argélia, Nigéria (que eram um único território no War, vejam só que coisa) e Grécia estão na segunda fase da Copa do Mundo. Itália, Espanha e Inglaterra, não. Muito será dito sobre o feito das classificadas e o vexame das eliminadas. Porém, vejo pouca gente (ou ninguém) trazer outro tema para debate: será que o critério adotado para a formação dos grupos da Copa está justo?

Sim, já antevejo a réplica de quem ler esse texto: "pô, mas isso é uma desculpa esfarrapada! O grupo foi feito por sorteio, e qualquer um poderia ter caído em uma chave complicada! Se o time não teve competência para superar os adversários, que não venha colocar a culpa no sorteio!".

Acontece que não se trata de "colocar a culpa". É uma questão de observar os fatos. A Copa de 2014 teve um grupo pra lá de surreal, o H, composto por Bélgica, Argélia, Rússia e Coreia do Sul. A falta de renome das seleções da chave gerou até um hilário perfil no Twitter, o El Grupo H :( (sim, a carinha faz parte do nome). Mais uma chave fraquinha foi a da Argentina, que reuniu, além do time de Messi, Nigéria, Bósnia e Irã.

Posso cravar que seria muito difícil a Argélia passar de fase se tivesse como adversários EUA, Alemanha e Portugal, os oponentes enfrentados por sua vizinha de continente Gana, despachada na primeira fase. Assim como talvez Rooney e cia. ainda estivessem no Mundial se a Inglaterra, e não a Bósnia, fosse o time europeu do Grupo F, o da Argentina.

E aí, agora, citei o xis da questão: "time europeu". Pois é. De 1994 para cá, a FIFA definiu que, com exceção dos cabeças-de-chave, o único critério que distinguiria as seleções é o geográfico. O horror supremo para a federação seria juntar três europeus ou dois sul-americanos, por exemplo. Então, por isso a maldição dos potes. E é a partir daí que tivemos Inglaterra (e a Holanda, FINALISTA DO ÚLTIMO MUNDIAL!!!) equiparada com a Bósnia, Equador no mesmo nível do ótimo Chile, e o razoável México, campeão olímpico, pareado com o fraquíssimo time de Honduras.

A FIFA tem em suas mãos um ranking, que, embora possa ser contestado, é um indicador correto sobre o desempenho das seleções. Foi a ele que a entidade recorreu na hora de definir os cabeças-de-chave. Por que não estabelecer os potes seguintes também de acordo com o critério estabelecido? Será mesmo que chocar três times de um mesmo continente na fase inicial é um pecado maior do que fazer, simultaneamente, grupos insanos e varzeanos na primeira parte do Mundial?

Cabe lembrar que não estou falando de nenhuma inovação. A Copa de 1990 teve seus grupos formados de acordo com os níveis das seleções. A Folha de S. Paulo de 9 de dezembro de 1989, o dia do sorteio, noticia: Os nomes de 18 seleções estarão distribuídos por três urnas, agrupadas por categorias: seleções 'fortes' (Espanha, URSS, Escócia, Áustria, Iugoslávia e Holanda), 'intermediárias' (Colômbia, Uruguai, Tchecoslováquia, Eire, Romênia e Suécia) e 'fracas' (Camarões, Egito, Coreia do Sul, Emirados Árabes Unidos, Costa Rica e EUA).

Note que a Costa Rica está ali entre os fracos. Exatamente como foi pintada antes de a bola rolar em 2014. E, em outra repetição, passou de fase em 1990, como fez agora. Como explicar isso? Ora, com a riqueza do futebol, e sua imprevisibilidade de que tanto gostamos. Zebras acontecerão, com ou sem grupos organizados, independentemente do critério do torneio. E isso é bom. O Objetivo não é acabar com nada de bacana que caracteriza o futebol, e sim acrescentar uma dose extra de racionalidade.

quarta-feira, 28 de maio de 2014

Porque torcerei contra / a favor das seleções na Copa

Bem, falta menos de um mês para o Mundial e, como vai ter Copa sim, podemos nos dedicar a falar um pouco sobre seleções, futebol, bola rolando, assunto tão negligenciado (com certa razão) em virtude das confusões extracampo que o torneio despertou, tem despertado e ainda despertará.

Eu não sou um apaixonado pela seleção brasileira, mas estou longe, bem longe, de ser daqueles que torce contra "em forma de protesto" (embora já tenha pensado assim, admito). No meu caso - reiterando que se trata de uma postura inequivocadamente pessoal - é apenas uma questão de não haver aquela conexão entre a seleção brasileira e meus gostos, meus interesses quando me disponho a torcer.

Isto posto, apresento alguns motivos que nortearão minha torcida durante a Copa. Fatores que me farão torcer contra ou a favor das principais seleções do torneio. Mais uma vez, são critérios pessoais; mas acredito que encontrarão eco no pensamento de muita gente.

Brasil
Porque torcer a favor:
porque é meu país, porque a Copa é aqui, porque seria legal para o próprio futebol que a seleção mais vitoriosa da história levantasse uma taça dentro de seu lar. Mas meu principal motivo para torcer a favor do Brasil é pelo fato de que o clima que se instala aqui quando a seleção perde um Mundial é insuportável. A começar porque a culpa pela derrota não é colocada no goleiro, no centroavante, no técnico; a rapaziada prefere insistir em componentes psicológicos, do tipo "eles ganham milhões e não tão nem aí pra nada". Sem contar que, invariavelmente, pouco depois da Copa sempre rola de esportistas brasileiros ganharem torneios em outras modalidades e começar aquela comparação irritante: "olhaí, tá vendo, esses que são atletas de verdade, têm amor ao esporte, não são mercenários como os de futebol". É um ambiente daqueles que dá dor no pâncreas só de pensar. Tô fora.
Porque torcer contra: porque um título brasileiro legitimaria (como foi em 2002) algumas cagadas feitas pela CBF na preparação do time. Não, não estou dizendo que "tem que perder pra moralizar". Ganhando ou perdendo, o Brasil continuará com o seu futebol do jeitinho que é agora - e, além disso, tenho a certeza de que o desempenho da seleção dentro de campo não afetará em nada a conjuntura política. O que me refiro é a bizarrices como a escolha de Felipão - cujo último trabalho no Brasil levou ao rebaixamento de um time grande -, a titularidade de Júlio César, entre outros fatores.

Argentina
Porque torcer a favor: Messi. E pronto. Messi já é um dos maiores jogadores da história do futebol. Ele não está no nível de Tostão, George Best, Zico, Gerd Muller; está no nível de Pelé, Garrincha, Zidane, Maradona. Mas, porém, contudo, todavia, há gente que não o coloca nesse patamar - e única e exclusivamente pelo fato de ele não ter uma Copa do Mundo em seu currículo. Se ele arrebentar no Mundial, se consagrará de maneira inequívoca entre as lendas. E nós testemunharemos a história sendo feita.
Porque torcer contra: não tenho rigorosamente nada contra a população argentina e pouco contra o futebol argentino em si. Também não compactuo, com intensidade, da rivalidade Brasil x Argentina - que, embora exista de verdade, acabou se tornando um pretexto para propagandas péssimas. Porém, eu tenho MUITA raiva de brasileiros que consideram o futebol argentino um modelo. Um argentino driblou três zagueiros? "Oh, essa é a habilidade porteña, coisa rara de ser ver aqui" - e quando o Neymar faz o mesmo, é firulinha. Um argentino deu um carrinho preciso e desarmou um adversário na hora H? "Oh, essa é a raça porteña, coisa que não há no Brasil" - e quando um brasileiro faz o mesmo, está "apelando para a violência". O futebol brasileiro não é perfeito, mas é muito superior do que o argentino, e em quase todos os aspectos (eles só ganham de nós em termos de torcida, mas isso é outra história). O título argentino, e logo aqui, servirá como combustível para a papagaiada.

Alemanha
Porque torcer a favor: geralmente, os mesmos que endeusam o futebol argentino costumam descer a lenha no futebol alemão - e isso, invariavelmente, sem ver nenhum jogo de lá. "Cintura dura", "retranqueiros", etc. E isso mesmo com a Alemanha, atualmente, tendo uma geração ótima, habilidosa, veloz e... ofensiva. É, isso mesmo, hoje em dia a Alemanha joga pra frente. Curiosamente, essa geração - de Khedira, Ozil, Muller, Kroos e outros - não ganhou nenhuma taça. Nem Euro, nem Mundial, nem mesmo Olimpíada. Tá na hora dessa turma ganhar algo.
Porque torcer contra: sinceramente, são poucos os motivos. Acho que só me oporia mesmo a um título alemão se o adversário na decisão fosse o Brasil (peço a releitura do tópico 'Brasil' para compreensão dos motivos) ou uma zebra (porque zebras são legais).

França
Porque torcer a favor: guardadas todas as imensas proporções, o que falei em relação ao Messi se aplica também ao Ribery. Ele é um dos grandes da sua geração, mas não consegue se posicionar como o melhor do mundo pela concorrência com Cristiano Ronaldo e Messi. Numa dessas, com a taça na mão, pode evoluir a ponto de ser, ele também, considerado uma lenda.
Porque torcer contra: tá certo que, como eu já disse, não sofro pela seleção brasileira. Mas não há como desprezar 1998, né? E, pô, se eles ganhassem o bi logo aqui, ia ser meio doído...

Itália
Porque torcer a favor: há pouca coisa que anime qualquer não-italiano a torcer pela Itália hoje. Bem, talvez o Balotelli, sei lá. Ele é uma figura carismática até não poder mais, ia ser divertido ele fazendo a festa com a taça. Também seria bacana ver Buffon e Pirlo encerrando suas extraordinárias carreiras com mais uma Copa do Mundo.
Porque torcer contra: a Itália é tetra. Ganhando aqui, igualaria o Brasil como pentacampeã. É claro que a seleção tem méritos históricos, mas uma de suas estrelas é para um dos piores mundiais de todos os tempos, o de 1934. Sei lá, acho que o Brasil não é o lugar mais indicado para eles alcançarem o quinto título...

Inglaterra
Porque torcer a favor: a Inglaterra tem apenas um título de Copa, o contestado 1966, e isso é relativamente injusto. Não que eles tenham sido roubados nem nada, mas é fato que o futebol inglês revelou muita gente boa ao longo dos anos, e mais recentemente teve uma geração ótima, com nomes como Rooney, Gerrard, Owen, Lampard, Terry e outros. É uma rapaziada que faria jus a um título mundial.
Porque torcer contra: essa mesma turminha aí já teve duas chances para ganhar a Copa (2006 e 2010) e fez feio. Seria uma baita inversão da lógica eles ganharem agora.

Uruguai
Porque torcer a favor: porque o Uruguai é legal. País de 3 milhões de habitantes (o mesmo que a Zona Leste de São Paulo), que já ganhou duas Copas, foi semifinalista em outras duas, merece muito respeito. E formou uma geração séria e promissora, liderada por Luis Suárez. Sem contar a simbologia monstruosa que teria outra taça no Maracanã.
Porque torcer contra: justamente pelo que aconteceu em 1950, pô!

Holanda
Porque torcer a favor: porque a Holanda é um país legal e tem uma seleção legal, e que injustamente nunca subiu ao topo do pódio em Copas. A Holanda - com o time que for - merece uma estrelinha dourada na camisa. Se for agora, tudo bem.
Porque torcer contra: justamente pelo fato de que o grupo atual holandês é pra lá de sem graça. Com a exceção de Robben (e olhe lá), são poucos os holandeses que hoje encantam. Seria estranho ver a geração holandesa atual campeã do mundo e a de Cruyff não.

Espanha
Porque torcer a favor: hegemonias são chatas? Sim, são, é legal que haja uma alternância entre os que conquistam a glória. Por outro lado, eu gosto de testemunhar a história, de ver a consagração de mitos. A Espanha ganhou a Euro em 2008 e 2012 e a Copa em 2010. Se vencer agora, a Espanha obterá um bi em Copas do Mundo que ninguém consegue desde 1962, quando o Brasil faturou a coroa no Chile. Poderei dizer, no futuro, que vi jogar um dos melhores times de todos os tempos.
Porque torcer contra: porque tudo o que se diz sobre a Espanha está condenado ao esquecimento. O que a seleção fez desde o título da Euro não encantou ninguém. Explica muito isso o desmantelamento do histórico Barcelona. A Espanha, hoje, é um time mais sem graça do que foi nas outras disputas.

Portugal
Porque torcer a favor:
Cristiano Ronaldo, é claro. Ele está ainda uns degraus abaixo do Messi, mas também caminha para almejar uma posição entre os mitos. A Copa pode ser seu passaporte definitivo. E, além disso, calaria a boca dos que o acham um cara "mais preocupado com o cabelo do que com o futebol".
Porque torcer contra: quem mais tem a seleção de Portugal? O título consagraria uma geração de medianos.

Quanto às outras seleções... bem, zebras são sempre bem-vindas! Mas com moderação...

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Estrago seu trabalho amado em três dias

O pênalti que Neto desperdiçou custou ao Santos o título paulista. Mas, ainda que tivesse sido convertido e o restante da disputa desse a taça ao alvinegro, não seria suficiente para apagar a luz amarela que se acendeu na Vila Belmiro desde a primeira partida da decisão do estadual. A realidade é que a final do Paulistão e o confronto entre Santos e Mixto pela Copa do Brasil mostraram que o trabalho de Oswaldo de Oliveira pode não ser a coisa boa que pareceu no início.

O Santos começou o ano bem demais. O time tinha características interessantes: era ofensivo, mas sem se descuidar atrás. Na verdade, o time parecia se destacar pelo PREPARO FÍSICO. Às vezes, parecia que o Peixe mandava 20 atletas a campo, contra 11 dos adversários. Isso se via bem na obtenção da segunda bola: tudo quanto é rebote ficava nos pés do Santos, dominado por jogadores que apareciam aqui e ali, se multiplicando diante da defesa inimiga.

Era um 4-4-3 que se transformava em 4-2-4, ou seja lá qual for a distribuição numérica. O que importa é que o time todo ia pra cima. Cícero agia como o maestro, o distribuidor de bolas; Arouca (em sua melhor temporada desde 2010) continha os adversários e se mandava para a frente com a desenvoltura que nos encantou naquele ano de título estadual e da Copa do Brasil; Geovânio era uma flecha, incisivo e preciso pela lateral; Thiago Ribeiro, embora irregular, desempenhava bem sua função; até mesmo Damião não comprometia tanto assim; Gabriel evoluía a cada partida e, se ainda assim nada funcionasse, poderíamos recorrer a Rildo no banco de reservas.

Foi dessa forma que o Santos fez a melhor campanha da primeira fase do estadual, goleou o Corinthians e chegou favoritíssimo para a etapa decisiva do torneio.

Mas aí veio a semi com o Penapolense e um sufoco bem maior do que o esperado. Depois, a decisão contra o Ituano e o apagão que todos viram. Contra o Mixto, um jogo pra lá de sem-vergonha em que o 3x0 traduziu como poucas vezes a frase "não fez mais do que a obrigação".

É esse retrospecto recente que traz as incertezas à Vila. Até duas semanas atrás, não seria nada absurdo cravar o Santos entre os principais favoritos ao Brasileiro - não podemos esquecer que se trata de um torneio longo e que tradicionalmente prejudica quem está na Libertadores. Agora, embora eu ainda ache que o time é bom e tem condições de fazer um bom papel, essa certeza não é das mais fortes. Dúvida é a melhor palavra para descrever o sentimento.

Damião e Geovânio
Leandro Damião se tornou o alvo principal da torcida santista e, mais que isso, uma explicação pronta para os problemas do clube. Não ganhamos do Ituano, não fizemos cinco gols em outro jogo? Basta culpar a má forma do cara, e - isso é importante - lembrar a cada instante que ele custou R$ 42 milhões e que a transação que o levou à Vila é mais do que controversa.

OK, não vou aqui forçar a barra na "do contrice" e dizer que Damião está jogando bem. Não, ele não está. Hoje, HOJE, é menos jogador do que Gabriel e nem está muita coisa á frente de Stéfano Yuri, a revelação da Copinha. Um banco para ele não seria mal nenhum. A questão é que é equivocado transferir a ele toda a responsabilidade pelos insucessos. Ontem, por exemplo, ele não jogou. E o Santos foi mal da mesma forma. Há mais problemas do que Damião.

E um deles atende pelo nome de Geovânio. Aliás, serei mais incisivo: a "decadência" (ô palavrinha forte, mas não pensei em outra) do Santos nessas últimas semanas tem tudo a ver com o declínio do Caveirinha. O moleque que começou o ano voando baixo, vestindo a 10 e sendo o melhor jogador do time, hoje é um arremedo do que já foi. Não identifico motivações táticas para o problema, acho que não é por aí. Também nunca ouvi falar nada relacionado a baladas ou a outros fatores que são apontados como as causas da diminuição do futebol de sujeitos que estouram com tudo. A realidade é que Geovânio está menos dinâmico, menos preciso, menos participativo. Não tem chamado o jogo como fazia.

Acredito que é o caso de Oswaldo apostar todas as suas fichas na reabilitação do moleque, que é bom jogador e vinha sendo o craque do time no Paulista. Pode ser ele a saída para que o trabalho amado de OO não vá para o brejo.

segunda-feira, 31 de março de 2014

A insistência na ideia de que o futebol do interior era mais forte antigamente - ainda que os fatos não justifiquem a teoria

Esses dias fiz no Facebook um post em que falava sobre os feitos do Penapolense no Paulistão atual - goleada sobre o Santos na primeira fase, eliminação do São Paulo no Morumbi e que posso atualizar agora, após o duríssimo duelo com o Peixe pela semi do estadual - e que dizia que, se fosse antigamente, essas façanhas do clube seriam cantadas em verso e prosa e serviriam como argumento para dizer que "o futebol do interior do passado era muito mais forte".

Recebi muitos comentários, todos pertinentes, concordando e discordando da minha avaliação. Uma das ponderações lá feitas era a de que os estaduais de antigamente eram mais valorizados do que os atuais - o que é uma verdade indiscutível - e que, por isso, alcançar outrora decisões e vitórias sobre os grandes é algo muito mais digno de aplausos do que os triunfos nos tempos de WhatsApp.

Pois bem, concordo plenamente.

A questão - e isso eu deixei de desenvolver lá no Facebook - é que a lista das façanhas dos times pequenos no passado é bem, mas bem menor do que a mistura entre folclore positivista e saudosismo exagerado nos faz pensar.

Uma análise rápida sobre a bíblia (www.rsssf.com) nos deixa claro que os clubes grandes monopolizavam os estaduais no passado com uma força muito maior do que a atual. Entre 1960 e 1979, uma das eras mais nobres do nosso futebol, sabem em quantas vezes nós tivemos times fora dos 12 grandes vencendo os quatro principais estaduais do Brasil (SP, RJ, RS e MG)? Quatro: duas vezes no Rio (América/60 e Bangu/66), uma em Minas Gerais (Siderúrgica/64) e uma em São Paulo (Portuguesa em 1973 - com todas as ressalvas ao fato de a Lusa não ser exatamente um time pequeno e de aquele campeonato ter tido um desfecho controverso). Desses quatro, apenas um triunfo é de times de fora da capital, vale registrar.

Em compensação, nos 20 campeonatos que separam 1993 e 2013 (não errei a conta; excluo daí as edições de 2002, enfraquecidas por conta dos torneios regionais), a diversidade é maior. Foram seis vezes: três em Minas Gerais (América/93 e 2001 e Ipatinga 2005), duas no Rio Grande do Sul (Juventude/98 e Caxias/2001) e uma em São Paulo (São Caetano/2004).

Sem contar que nesse período também vimos alguns dos times "menores" levantando taças nacionais, como as Copas do Brasil faturadas por Juventude (1999), Santo André (2004) e Paulista de Jundiaí (2005). Rebate isso no passado somente o título brasileiro do Guarani em 1978.

"Pô, mas você tá falando besteira e sendo contraditório. Acabou de falar que os estaduais antigamente eram mais priorizados e agora vem com esse dado de que os times menores estão mais fortes hoje? Esses números não fazem sentido! Os grandes hoje em dia dão menos bola pro estadual, e por isso os pequenos aparecem."

Não estou desprezando isso. Meu ponto é um só: os pequenos, antigamente, não colhiam resultados tão expressivos assim. Provem o contrário!

"Ah, o Santos de Pelé perdeu pro XV de Jaú de 2x0 em 1965!" (estou inventando isso, antes que alguém vá olhar na tabela). De fato! Assim como o Santos de Neymar perdeu para o São Caetano no Paulista de 2012. E que o Corinthians que viria a ser campeão mundial foi derrotado pela Ponte Preta no mesmo ano. E que o Inter em 2010, ano em que ganhou a Libertadores, perdeu de 3x0 para o modesto São José no Gauchão. E que o Vasco em 2011, o melhor ano de sua história recente, levou de 3x1 do Macaé. E etc., etc., etc.

As realizações dos times pequenos do passado não são, em número, tão maiores do que as dos nanicos da atualidade.

Achei importante fazer esse texto porque li há pouco, o artigo "Futuro", de Ugo Giorgetti. Nele, o autor lamenta a decadência do futebol do interior paulista, baseando-se em declínios específicos de algumas equipes e em uma boa dose de memória afetiva - em que pese o fato de seu post ser aberto por uma citação ao Fernando Martinez, do ótimo Jogos Perdidos, cuja opinião sobre as equipes menores tem peso dois, três, quatro.

Discordo de quase tudo o que disse Ugo - até mesmo de sua análise sobre a mídia e a importância dada aos times do exterior, mas isso fica para outro post. Só queria destacar a menção que ele faz ao rebaixamento do Comercial de Ribeirão Preto, apontado por ele como uma das "provas" dessa decadência do futebol do interior.

Mais uma vez, recorro à RSSSF. Lá vejo que o Comercial foi rebaixado do Paulistão em 1968 e só voltaria a enfrentar os grandes do estado em 1974. Mas e aí, "os times do interior não eram mais fortes antigamente"?

E cabe ainda um último ponto: os defensores da tese do "os times do interior eram mais fortes antigamente" em geral agarram-se ferrenhamente ao declínio de tradicionais como o próprio Comercial, "XV's" de Jaú e Piracicaba, Portuguesa Santista e outros para justificar seus pontos de vista. OK, mas... o Ituano não representa o interior? O Penapolense não representa o interior? O Guaratinguetá, melhor time da primeira fase do Paulista em 2008, não representa o interior? Que critérios são esses, que definem um interior que "vale" e um que "não vale"? A entender.