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terça-feira, 15 de julho de 2014

Que o respeito definitivo ao futebol alemão seja também um legado da Copa

A Alemanha ganhou três Copas do Mundo entre 1930 e 2010. Na primeira, derrubou Puskas. Na segunda, Cruyff. E na terceira, Maradona.

E ainda assim, aqui no Brasil havia (há?) muita gente que não levava o futebol alemão a sério.

Movidos por um misto de preconceito, patriotismo equivocado e sentimento anti-colonialista, muitos brasileiros se recusavam a acreditar que o futebol praticado pelos alemães é, sim, de qualidade. E colocavam nos germânicos a pecha de retranqueiros, cintura-dura, caneludos e por aí vai. Para coroar o raciocínio, volta e meia apelava-se à seguinte frase: "a Europa é boa apenas na organização; para formar jogadores, ninguém supera Brasil e Argentina".

Opa opa, peraí. Mas peraí MESMO.

Uma parte da frase é até correta. Não deixemos o vexame de 2014 (e os de 2010, 2006...) nos influenciar: o Brasil tem, sim, a mais bonita história do futebol mundial. Ganhamos cinco copas, proporcionamos jogos épicos e somos o berço de gente como Pelé, Garrincha, Tostão, Ronaldo, Romário e, claro, Rivaldo (melhor falar o nome do cara para não ser atacado...).

Agora a Argentina... bem, não se trata de desmerecer o futebol dos nossos vizinhos. É apenas uma questão de enxergar a realidade. Não há nenhuma lógica em afirmar que o futebol argentino é superior - em qualquer aspecto! - ao alemão. A Argentina teve Maradona e tem Messi? Ótimo, realmente um feito impressionante. Mas a Alemanha teve e tem Beckenbauer, Gerd Muller, Thomas Müller, Fritz Walter, o maior artilheiro das Copas, quatro mundiais no currículo, um futebol de clubes excepcional e tantas outras realizações.

Acredito que o tetracampeonato alemão de agora define, com muita propriedade, quem é o segundo maior país do futebol (o primeiro lugar, reitero, é do Brasil). Embora a Alemanha agora tenha apenas empatado com a Itália, é indiscutível que as quatro estrelas alemãs brilham com mais intensidade do que as italianas - não se pode comparar os mundiais de 1934 e 1938 com 1954 e 1974, apenas para equiparar as duas primeiras taças de cada país. Além disso, no somatório geral a Alemanha vence de longe a Itália, devido a sua participação muito maior em finais e semifinais.

Os 7x1 escancararam a superioridade que existe atualmente da seleção alemã sobre a brasileira. E, depois, os mesmos alemães retificaram sua condição de melhor do mundo ao vencer a poderosa Argentina, e abrir sobre os conterrâneos de Maradona uma vantagem que só poderá ser equalizada no mínimo em 2022. Foi uma lição inequívoca do respeito que os germânicos merecem. Aceitemos isso como um bom legado da Copa.
Na foto, um entre tantos espetáculos proporcionados pela torcida do Borussia Dortmund. Porque se o assunto for a festa fora de campo, eles também estão à frente dos argentinos

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Primeira fase da Copa: viva a zebra, mas... que tal rever os critérios dos grupos?

Argélia, Nigéria (que eram um único território no War, vejam só que coisa) e Grécia estão na segunda fase da Copa do Mundo. Itália, Espanha e Inglaterra, não. Muito será dito sobre o feito das classificadas e o vexame das eliminadas. Porém, vejo pouca gente (ou ninguém) trazer outro tema para debate: será que o critério adotado para a formação dos grupos da Copa está justo?

Sim, já antevejo a réplica de quem ler esse texto: "pô, mas isso é uma desculpa esfarrapada! O grupo foi feito por sorteio, e qualquer um poderia ter caído em uma chave complicada! Se o time não teve competência para superar os adversários, que não venha colocar a culpa no sorteio!".

Acontece que não se trata de "colocar a culpa". É uma questão de observar os fatos. A Copa de 2014 teve um grupo pra lá de surreal, o H, composto por Bélgica, Argélia, Rússia e Coreia do Sul. A falta de renome das seleções da chave gerou até um hilário perfil no Twitter, o El Grupo H :( (sim, a carinha faz parte do nome). Mais uma chave fraquinha foi a da Argentina, que reuniu, além do time de Messi, Nigéria, Bósnia e Irã.

Posso cravar que seria muito difícil a Argélia passar de fase se tivesse como adversários EUA, Alemanha e Portugal, os oponentes enfrentados por sua vizinha de continente Gana, despachada na primeira fase. Assim como talvez Rooney e cia. ainda estivessem no Mundial se a Inglaterra, e não a Bósnia, fosse o time europeu do Grupo F, o da Argentina.

E aí, agora, citei o xis da questão: "time europeu". Pois é. De 1994 para cá, a FIFA definiu que, com exceção dos cabeças-de-chave, o único critério que distinguiria as seleções é o geográfico. O horror supremo para a federação seria juntar três europeus ou dois sul-americanos, por exemplo. Então, por isso a maldição dos potes. E é a partir daí que tivemos Inglaterra (e a Holanda, FINALISTA DO ÚLTIMO MUNDIAL!!!) equiparada com a Bósnia, Equador no mesmo nível do ótimo Chile, e o razoável México, campeão olímpico, pareado com o fraquíssimo time de Honduras.

A FIFA tem em suas mãos um ranking, que, embora possa ser contestado, é um indicador correto sobre o desempenho das seleções. Foi a ele que a entidade recorreu na hora de definir os cabeças-de-chave. Por que não estabelecer os potes seguintes também de acordo com o critério estabelecido? Será mesmo que chocar três times de um mesmo continente na fase inicial é um pecado maior do que fazer, simultaneamente, grupos insanos e varzeanos na primeira parte do Mundial?

Cabe lembrar que não estou falando de nenhuma inovação. A Copa de 1990 teve seus grupos formados de acordo com os níveis das seleções. A Folha de S. Paulo de 9 de dezembro de 1989, o dia do sorteio, noticia: Os nomes de 18 seleções estarão distribuídos por três urnas, agrupadas por categorias: seleções 'fortes' (Espanha, URSS, Escócia, Áustria, Iugoslávia e Holanda), 'intermediárias' (Colômbia, Uruguai, Tchecoslováquia, Eire, Romênia e Suécia) e 'fracas' (Camarões, Egito, Coreia do Sul, Emirados Árabes Unidos, Costa Rica e EUA).

Note que a Costa Rica está ali entre os fracos. Exatamente como foi pintada antes de a bola rolar em 2014. E, em outra repetição, passou de fase em 1990, como fez agora. Como explicar isso? Ora, com a riqueza do futebol, e sua imprevisibilidade de que tanto gostamos. Zebras acontecerão, com ou sem grupos organizados, independentemente do critério do torneio. E isso é bom. O Objetivo não é acabar com nada de bacana que caracteriza o futebol, e sim acrescentar uma dose extra de racionalidade.

quarta-feira, 28 de maio de 2014

Porque torcerei contra / a favor das seleções na Copa

Bem, falta menos de um mês para o Mundial e, como vai ter Copa sim, podemos nos dedicar a falar um pouco sobre seleções, futebol, bola rolando, assunto tão negligenciado (com certa razão) em virtude das confusões extracampo que o torneio despertou, tem despertado e ainda despertará.

Eu não sou um apaixonado pela seleção brasileira, mas estou longe, bem longe, de ser daqueles que torce contra "em forma de protesto" (embora já tenha pensado assim, admito). No meu caso - reiterando que se trata de uma postura inequivocadamente pessoal - é apenas uma questão de não haver aquela conexão entre a seleção brasileira e meus gostos, meus interesses quando me disponho a torcer.

Isto posto, apresento alguns motivos que nortearão minha torcida durante a Copa. Fatores que me farão torcer contra ou a favor das principais seleções do torneio. Mais uma vez, são critérios pessoais; mas acredito que encontrarão eco no pensamento de muita gente.

Brasil
Porque torcer a favor:
porque é meu país, porque a Copa é aqui, porque seria legal para o próprio futebol que a seleção mais vitoriosa da história levantasse uma taça dentro de seu lar. Mas meu principal motivo para torcer a favor do Brasil é pelo fato de que o clima que se instala aqui quando a seleção perde um Mundial é insuportável. A começar porque a culpa pela derrota não é colocada no goleiro, no centroavante, no técnico; a rapaziada prefere insistir em componentes psicológicos, do tipo "eles ganham milhões e não tão nem aí pra nada". Sem contar que, invariavelmente, pouco depois da Copa sempre rola de esportistas brasileiros ganharem torneios em outras modalidades e começar aquela comparação irritante: "olhaí, tá vendo, esses que são atletas de verdade, têm amor ao esporte, não são mercenários como os de futebol". É um ambiente daqueles que dá dor no pâncreas só de pensar. Tô fora.
Porque torcer contra: porque um título brasileiro legitimaria (como foi em 2002) algumas cagadas feitas pela CBF na preparação do time. Não, não estou dizendo que "tem que perder pra moralizar". Ganhando ou perdendo, o Brasil continuará com o seu futebol do jeitinho que é agora - e, além disso, tenho a certeza de que o desempenho da seleção dentro de campo não afetará em nada a conjuntura política. O que me refiro é a bizarrices como a escolha de Felipão - cujo último trabalho no Brasil levou ao rebaixamento de um time grande -, a titularidade de Júlio César, entre outros fatores.

Argentina
Porque torcer a favor: Messi. E pronto. Messi já é um dos maiores jogadores da história do futebol. Ele não está no nível de Tostão, George Best, Zico, Gerd Muller; está no nível de Pelé, Garrincha, Zidane, Maradona. Mas, porém, contudo, todavia, há gente que não o coloca nesse patamar - e única e exclusivamente pelo fato de ele não ter uma Copa do Mundo em seu currículo. Se ele arrebentar no Mundial, se consagrará de maneira inequívoca entre as lendas. E nós testemunharemos a história sendo feita.
Porque torcer contra: não tenho rigorosamente nada contra a população argentina e pouco contra o futebol argentino em si. Também não compactuo, com intensidade, da rivalidade Brasil x Argentina - que, embora exista de verdade, acabou se tornando um pretexto para propagandas péssimas. Porém, eu tenho MUITA raiva de brasileiros que consideram o futebol argentino um modelo. Um argentino driblou três zagueiros? "Oh, essa é a habilidade porteña, coisa rara de ser ver aqui" - e quando o Neymar faz o mesmo, é firulinha. Um argentino deu um carrinho preciso e desarmou um adversário na hora H? "Oh, essa é a raça porteña, coisa que não há no Brasil" - e quando um brasileiro faz o mesmo, está "apelando para a violência". O futebol brasileiro não é perfeito, mas é muito superior do que o argentino, e em quase todos os aspectos (eles só ganham de nós em termos de torcida, mas isso é outra história). O título argentino, e logo aqui, servirá como combustível para a papagaiada.

Alemanha
Porque torcer a favor: geralmente, os mesmos que endeusam o futebol argentino costumam descer a lenha no futebol alemão - e isso, invariavelmente, sem ver nenhum jogo de lá. "Cintura dura", "retranqueiros", etc. E isso mesmo com a Alemanha, atualmente, tendo uma geração ótima, habilidosa, veloz e... ofensiva. É, isso mesmo, hoje em dia a Alemanha joga pra frente. Curiosamente, essa geração - de Khedira, Ozil, Muller, Kroos e outros - não ganhou nenhuma taça. Nem Euro, nem Mundial, nem mesmo Olimpíada. Tá na hora dessa turma ganhar algo.
Porque torcer contra: sinceramente, são poucos os motivos. Acho que só me oporia mesmo a um título alemão se o adversário na decisão fosse o Brasil (peço a releitura do tópico 'Brasil' para compreensão dos motivos) ou uma zebra (porque zebras são legais).

França
Porque torcer a favor: guardadas todas as imensas proporções, o que falei em relação ao Messi se aplica também ao Ribery. Ele é um dos grandes da sua geração, mas não consegue se posicionar como o melhor do mundo pela concorrência com Cristiano Ronaldo e Messi. Numa dessas, com a taça na mão, pode evoluir a ponto de ser, ele também, considerado uma lenda.
Porque torcer contra: tá certo que, como eu já disse, não sofro pela seleção brasileira. Mas não há como desprezar 1998, né? E, pô, se eles ganhassem o bi logo aqui, ia ser meio doído...

Itália
Porque torcer a favor: há pouca coisa que anime qualquer não-italiano a torcer pela Itália hoje. Bem, talvez o Balotelli, sei lá. Ele é uma figura carismática até não poder mais, ia ser divertido ele fazendo a festa com a taça. Também seria bacana ver Buffon e Pirlo encerrando suas extraordinárias carreiras com mais uma Copa do Mundo.
Porque torcer contra: a Itália é tetra. Ganhando aqui, igualaria o Brasil como pentacampeã. É claro que a seleção tem méritos históricos, mas uma de suas estrelas é para um dos piores mundiais de todos os tempos, o de 1934. Sei lá, acho que o Brasil não é o lugar mais indicado para eles alcançarem o quinto título...

Inglaterra
Porque torcer a favor: a Inglaterra tem apenas um título de Copa, o contestado 1966, e isso é relativamente injusto. Não que eles tenham sido roubados nem nada, mas é fato que o futebol inglês revelou muita gente boa ao longo dos anos, e mais recentemente teve uma geração ótima, com nomes como Rooney, Gerrard, Owen, Lampard, Terry e outros. É uma rapaziada que faria jus a um título mundial.
Porque torcer contra: essa mesma turminha aí já teve duas chances para ganhar a Copa (2006 e 2010) e fez feio. Seria uma baita inversão da lógica eles ganharem agora.

Uruguai
Porque torcer a favor: porque o Uruguai é legal. País de 3 milhões de habitantes (o mesmo que a Zona Leste de São Paulo), que já ganhou duas Copas, foi semifinalista em outras duas, merece muito respeito. E formou uma geração séria e promissora, liderada por Luis Suárez. Sem contar a simbologia monstruosa que teria outra taça no Maracanã.
Porque torcer contra: justamente pelo que aconteceu em 1950, pô!

Holanda
Porque torcer a favor: porque a Holanda é um país legal e tem uma seleção legal, e que injustamente nunca subiu ao topo do pódio em Copas. A Holanda - com o time que for - merece uma estrelinha dourada na camisa. Se for agora, tudo bem.
Porque torcer contra: justamente pelo fato de que o grupo atual holandês é pra lá de sem graça. Com a exceção de Robben (e olhe lá), são poucos os holandeses que hoje encantam. Seria estranho ver a geração holandesa atual campeã do mundo e a de Cruyff não.

Espanha
Porque torcer a favor: hegemonias são chatas? Sim, são, é legal que haja uma alternância entre os que conquistam a glória. Por outro lado, eu gosto de testemunhar a história, de ver a consagração de mitos. A Espanha ganhou a Euro em 2008 e 2012 e a Copa em 2010. Se vencer agora, a Espanha obterá um bi em Copas do Mundo que ninguém consegue desde 1962, quando o Brasil faturou a coroa no Chile. Poderei dizer, no futuro, que vi jogar um dos melhores times de todos os tempos.
Porque torcer contra: porque tudo o que se diz sobre a Espanha está condenado ao esquecimento. O que a seleção fez desde o título da Euro não encantou ninguém. Explica muito isso o desmantelamento do histórico Barcelona. A Espanha, hoje, é um time mais sem graça do que foi nas outras disputas.

Portugal
Porque torcer a favor:
Cristiano Ronaldo, é claro. Ele está ainda uns degraus abaixo do Messi, mas também caminha para almejar uma posição entre os mitos. A Copa pode ser seu passaporte definitivo. E, além disso, calaria a boca dos que o acham um cara "mais preocupado com o cabelo do que com o futebol".
Porque torcer contra: quem mais tem a seleção de Portugal? O título consagraria uma geração de medianos.

Quanto às outras seleções... bem, zebras são sempre bem-vindas! Mas com moderação...

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Vai dar Bósnia em 2014: o "Imagine na Copa" junta-se ao "pavê ou pacumê"

A seleção da Bósnia está perto, muito perto da Copa de 2014. Nesta sexta-feira, os Bósnios fizeram 5x0 na Letônia fora de casa e dispararam na liderança do Grupo G das Eliminatórias europeias. Estão a quatro pontos da Grécia, a vice-líder, e se vencerem seu próximo jogo, em casa contra a Eslovênia, garantem a vaga no Brasil.

Será a estreia da seleção em Copas do Mundo. Apesar disso, não chega a ser exatamente uma surpresa. Já há tempos, a Bósnia bate na trave - perdeu apenas na repescagem a vaga para 2010.

Mas o mais curioso - e temerário - da classificação da Bósnia para a Copa do Mundo é o tanto de "piadinhas do pavê" que a seleção vai causar. Uma já está no título deste post. E outras pipocarão, sem dúvida.

Pensem no mais trágico: a Copa da Bósnia será logo a sediada no Brasil. Vai dar Bósnia para tudo quanto é canto, amigos. A Bósnia vai se espalhar. Já prevejo algum site mais "engraçadinho" fazendo montagens com fotos de filas nos aeroportos, estradas em má qualidade, problemas nos estádios e assim por diante.

Afinal, se hoje já dá pra fazer piadinha sem vergonha com a possível presença da Bósnia no Brasil, imagina na Copa!

PS: um aspecto interessante (e, agora, mais sério) sobre a classificação da Bósnia é que o fato fará com que a quarta ex-república iugoslava garanta presença em uma Copa do Mundo desde a extinção do país, em 1991. Croácia, Sérvia (com e sem Montenegro) e Eslovênia já tiveram suas oportunidades, agora é a Bósnia que se aproxima. E até mesmo Montenegro pode avançar - a seleção lidera seu grupo, que tem a Inglaterra como favorita. É um retrospecto bem, mas bem interessante, principalmente se contarmos que estamos falando de países cuja população não é das maiores. Para efeito de comparação, é só pensarmos que a União Soviética (muito maior e mais populosa), dissolvida à mesma época que a Iugoslávia, gerou apenas dois países que se classificaram para a Copa, Rússia e Ucrânia.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Do Qatar pode vir um indulto histórico

"Por lei, a maior pena que há no Brasil é de 30 anos. Eu estou cumprindo a minha há 50", dizia, no fim de sua vida, o ex-goleiro Barbosa. Ele estava em campo no fatídico Brasil 1x2 Uruguai e, por conta de sua posição (e há quem diga que também pela sua etnia) acabou sendo o ícone do maior vexame da história da seleção brasileira em todos os tempos, a perda do título mundial em 1950, num Maracanã que continha mais de 200 mil pessoas.

A despeito da força de sua frase, ainda em vida Barbosa contou com certas doses de "absolvição". Uma espécie de revisionismo da tragédia transferiu a culpa aos dirigentes - ah, essa essencial classe, "os dirigentes", assim, no plural, sempre o alvo perfeito das críticas vagas - que teriam perturbado a concentração dos atletas e assim prejudicado a preparação do time que ainda jogaria uma final de Copa do Mundo. E em seus últimos anos Barbosa foi recebedor de muitas homenagens. Em votação promovida pela Placar em 1994, foi eleito o melhor goleiro do Vasco em todos os tempos; foi também selecionado quando a Placar repetiu a dose em 2006. E tantas outras.

Se a história acabou por ser condescendente com Barbosa, ela não foi com outro personagem, que esta semana voltou à mídia.

Ou alguém aí consegue retirar qualquer centelha de culpa de Sebastião Lazaroni? Alguém consegue olhar para ele e não atribuir a ele o fracasso no Mundial de 1990, o desperdício de uma geração que tinha Romário, Careca e Bebeto, não lembrar do esquema com três zagueiros e um líbero, e visualizar, em sua figura, a ressurreição de uma Argentina que parecia um defunto cujo carrasco se chamava Roger Milla e vinha do longínquo Camarões?

Barbosa teve em sua trajetória como goleiro muito mais do que a Copa do Mundo de 1950. Foi titular do Vasco por mais de 10 anos e na Colina faturou inúmeras taças, entre elas o Sul-Americano de Clubes de 1948, espécie de embrião da Libertadores.

Já Lazaroni... só o técnico sabe explicar se foi voluntária ou involuntariamente, mas a carreira do técnico em terras nacionais, após a Copa de 1990, é algo que se aproxima do zero. A nem sempre confiável Wikipedia reporta uma passagem pelo Vasco em 1994, outra pelo Botafogo entre 2000 e 2001 e uma terceira pelo Juventude em 2005 (é também o que a memória deste escriba traz à tona). No estrangeiro, o técnico peregrinou por Itália (sua Waterloo), Arábia Saudita, México, Turquia, China, Jamaica, Japão, Kuweit, Portugal e, ufa, Qatar.

E é na terra dos skeiks, dos petrodólares, das denúncias e da Copa de 2022 que Sebastião tenta voltar a desfrutar de um relativo status de mainstream. Não deve ter vida fácil: será o terceiro treinador da equipe somente em 2011, e nada indica que disputará, até o final, a classificação para a Copa de 2014, a ser realizada aqui no Brasil.

Lazaroni não fez como Barbosa; não triunfou em sua própria terra e, ao que tudo indica, também não contará com aquela nostalgia quase que invariavelmente destinada a todos os ícones do passado. Carregará para sempre a pecha de "o pior treinador brasileiro em Copas do Mundo", a não ser que o futebol apronte das suas.

O mesmo Brasil que Lazaroni desprezou - ou por quem foi desprezado - pode ser a terra da redenção do técnico. Caso triunfe nas Eliminatórias, trará seu Qatar para aqui disputar uma Copa do Mundo, voltando à disputa mais de 20 anos depois. Diz um sábio ditado: "de onde menos se espera, é de onde não vem nada mesmo". É portanto próxima de zero a chance de Lazaroni fazer algo de digno em terras nacionais, se é que irá chegar até aqui. É pequena, bem pequena, a chance deste Barbosa contemporâneo mudar de status.