Há 10 anos, eu senti, pela primeira (e por enquanto única) vez na minha vida o desagradabilíssimo efeito do gás de pimenta. Veio rápido, intenso e incômodo, me fazendo tossir e lacrimejar. Motivou a mim, e a todos os que estavam perto, a recuar e assim abrir passagem ao caminhão de bombeiros que tentava prosseguir em meio a uma rua lotada.
O caminhão trazia os atletas do Santos que, poucas horas antes disso tudo, venceram o Vasco em São José do Rio Preto e assim conquistaram o Campeonato Brasileiro. No chão, eu e outros tantos santistas que celebravam ali a conquista.
O título de 2004 é daqueles que gera muito, mas muito o que se pensar. Ele não foi tão mágico quanto o de 2002: não foi conquistado de virada, sobre um rival, não quebrou fila, não teve conotação de surpresa. Ao contrário: o Santos figurava entre os favoritos para o torneio e a partida decisiva, com seus gols logo no início, não se caracterizou por emoções e alternativas.
A emoção foi construída antes daquilo. No longo torneio (46 jogos, contra 38 dos dias atuais), aconteceu coisa pra caramba. A mãe de Robinho foi sequestrada, o que tirou o principal jogador do Santos de muitas partidas; o Atlético-PR mostrava uma solidez digna de um avião em piloto automático; e Deivid, o 9 peixeiro fazia gols e mais gols, mas grande parte deles acabava injustamente anulado pela arbitragem, o que deu boa margem para teorias da conspiração.
Talvez o que possamos chamar de jogo - ou jogos - do título foi realizado uma semana antes da rodada final do Campeonato. O time paranaense liderava a disputa, dois pontos à frente do Santos; ia enfrentar um fraco Vasco em São Januário, enquanto o clube paulista encararia o perigoso (embora abalado pela morte de Serginho) São Caetano no ABC. Deu tudo certo para o Santos: o Vasco fez 1x0 sobre o Atlético e o Peixe passeou no ABC, com um inapelável 3x0. O jogo final, como já dito, acabaria tendo um quê de uma contenda protocolar.
Mas então qual a pegada desse título, o porquê de eu ter dito que ele "gera muito o que pensar"?
A questão é que ganhar um Campeonato Brasileiro apenas duas temporadas depois de ter vencido outro foi uma afirmação inequívoca da retomada da grandeza do Santos. Não, definitivamente não era um time sortudo salvo por uma molecada endiabrada, e sim uma equipe de camisa, de força, digna de brigar por títulos e de receber o mesmo tratamento de outros rivais que, por um bom tempo, o haviam feito comer poeira.
Depois de 2004, o Santos, embora não tenha mais vencido o Brasileirão, enfileirou uma série considerável de taças: cinco campeonatos paulistas, uma Copa do Brasil, uma Recopa e a tão sonhada Libertadores da América. As conquistas não apareceram mais desde a Recopa de 2012 - e as perspectivas da administração não estão das mais animadoras - , mas, enfim, não há como comparar o Santos hoje com aquele time pré-2002. E até mesmo com o que havia entre 2002 e o 19 de dezembro de 2004.
Fabinho, Preto Casagrande, Leonardo, Ávalos, Mauro e outros heróis esquecidos fizeram parte daquela campanha - o que, cabe registrar, deixa bem claro que não estamos falando de um bicampeonato alcançado pela "geração de Diego e Robinho". Robinho sim, mas Diego já havia ido embora - quem dividia o protagonismo com o ex e o atual camisa 7 eram nomes como Elano, o já citado Deivid, o talismã Basílio e o injustiçadíssimo capitão Ricardinho (que, por ser "corintiano", jamais desfrutou do status de ídolo na Vila).
Fecho o post com um vídeo sobre a penúltima rodada, a vitória no ABC. Não houve gás de pimenta naquele dia - o cheiro, ali, era de título.
sexta-feira, 19 de dezembro de 2014
quarta-feira, 19 de novembro de 2014
Por que Oscar é excluído da lista dos vilões da Copa?
O Brasil venceu a Áustria ontem e assim fechou com 100% de aproveitamento sua temporada pós Copa do Mundo. A despeito do que se poderia esperar depois do vexame na semi do Mundial, Dunga está usando muita gente que disputou a Copa - ontem, entraram em campo Thiago Silva, David Luiz, Luiz Gustavo, Fernandinho, Willian, Neymar e Oscar. Oscar. Pois é.
Ainda estamos assimilando o golpe dos 7x1. A primeira etapa desse processo, como sempre ocorre, é a caça por vilões. Felipão é o mais lógico; falar sobre "os cartolas" é a saída que, embora verdadeira, aparece como a mais cômoda para quem busca dar uma opinião contundente sem ter que pensar muito. Mas especificamente em relação a quem entrou em campo, voltaram-se as baterias contra Fred, Júlio César, o coitado do Bernard, Fernandinho... e ninguém fala de Oscar.
É curioso, inusitado mesmo, como o meia do Chelsea aparentemente está isento de qualquer culpa pelo vexame brasileiro no Mundial. Principalmente porque ele não deveu somente contra a Alemanha - toda a sua Copa foi opaca, sem-graça, indigna de quem tinha a responsabilidade de liderar o meio-campo e a criatividade do time.
Oscar jogou praticamente toda a Copa. Foi titular nos sete jogos do Brasil e, neles, deixou o campo em apenas duas ocasiões, contra o México (aos 39 do segundo tempo) e Chile (durante a prorrogação). Pouco fez, pouco brilhou. E olha que ele estreou bem contra a Croácia, chegando até a marcar um gol. Depois, foi apenas um complemento no time, e só voltou a brilhar - se é que podemos falar isso em relação àquele dia - quando marcou o solitário gol brasileiro no massacre imposto pela Alemanha.
Não quero, aqui, dizer que Oscar é um jogador fraco e que não deveria mais ser chamado para a seleção. Acredito que ele vai muito bem no Chelsea e até tem o que acrescentar ao Brasil - por ser jovem, tem condição de disputar a próxima Copa. Apenas busco, digamos assim, atribuir as responsabilidades a quem é de direito. O sarrafo no técnico e nos dirigentes não pode excluir um atleta - especialmente um de alto nível, como é Oscar - de ser avaliado pelo que deixou de fazer quando a seleção mais precisava dele.
Foto: CBF
Ainda estamos assimilando o golpe dos 7x1. A primeira etapa desse processo, como sempre ocorre, é a caça por vilões. Felipão é o mais lógico; falar sobre "os cartolas" é a saída que, embora verdadeira, aparece como a mais cômoda para quem busca dar uma opinião contundente sem ter que pensar muito. Mas especificamente em relação a quem entrou em campo, voltaram-se as baterias contra Fred, Júlio César, o coitado do Bernard, Fernandinho... e ninguém fala de Oscar.
É curioso, inusitado mesmo, como o meia do Chelsea aparentemente está isento de qualquer culpa pelo vexame brasileiro no Mundial. Principalmente porque ele não deveu somente contra a Alemanha - toda a sua Copa foi opaca, sem-graça, indigna de quem tinha a responsabilidade de liderar o meio-campo e a criatividade do time.
Oscar jogou praticamente toda a Copa. Foi titular nos sete jogos do Brasil e, neles, deixou o campo em apenas duas ocasiões, contra o México (aos 39 do segundo tempo) e Chile (durante a prorrogação). Pouco fez, pouco brilhou. E olha que ele estreou bem contra a Croácia, chegando até a marcar um gol. Depois, foi apenas um complemento no time, e só voltou a brilhar - se é que podemos falar isso em relação àquele dia - quando marcou o solitário gol brasileiro no massacre imposto pela Alemanha.
Não quero, aqui, dizer que Oscar é um jogador fraco e que não deveria mais ser chamado para a seleção. Acredito que ele vai muito bem no Chelsea e até tem o que acrescentar ao Brasil - por ser jovem, tem condição de disputar a próxima Copa. Apenas busco, digamos assim, atribuir as responsabilidades a quem é de direito. O sarrafo no técnico e nos dirigentes não pode excluir um atleta - especialmente um de alto nível, como é Oscar - de ser avaliado pelo que deixou de fazer quando a seleção mais precisava dele.
Foto: CBF
quarta-feira, 29 de outubro de 2014
Futebol de segunda
Eleições e o duelo Palmeiras x Corinthians (ninguém sabia que esses eventos seriam realizados?) fizeram com que o jogo entre São Paulo e Goiás, pela última rodada do Campeonato Brasileiro, fosse transferido para uma segunda-feira. A marcação de uma partida do Brasileirão para o menos futebolístico dos dias da semana gerou reações: Muricy Ramalho reclamou do calendário, Antonio Carlos, zagueiro tricolor, disse que jamais havia jogado em uma segunda-feira, o jornalista Mauricio Stycer twittou dizendo que a partida representava um "desdobramento da última fronteira" e a Folha de S. Paulo até publicou uma estatística com o desempenho histórico do time do Morumbi em segundas-feiras.
É claro que futebol profissional numa segunda-feira é um negócio estranho. Mas para mim e outros da minha geração há algo familiar nisso. Porque na década de 1990 os jogos na segunda não eram tão raros assim.
O Campeonato Brasileiro de 1991, por exemplo, tinha regulares jogos às segundas-feiras. Era uma forma - acredito eu - de distribuir melhor as partidas e possibilitar mais transmissões pela televisão. Cabia à Bandeirantes exibir os confrontos. Lembro bem de um Santos 3x1 Sport, vencido pelo Peixe de virada, que o YouTube se encarregou de deixar claro que o jogo tinha se desenhado na minha memória correspondia à realidade (aliás, o que mais me surpreendeu ao rever os lances dessa partida é a qualidade - sem ironia - do gramado da Vila. Para mim, o relvado do Urbano Caldeira tinha sido um pasto permanente ao longo de todos os anos 1990, antes da reforma de 1996).
Mas a experiência do Brasileirão às segundas foi curta. O que ligou, pra valer, futebol e segunda-feira nos anos 1990 foi a transmissão do Campeonato Carioca, também na Bandeirantes. A cada semana, as partidas do estadual do Rio eram exibidas nacionalmente e conduzidas pela trinca Januário de Oliveira (foto) - Gérson Canhotinha - Addison Coutinho. Em tempos pré-internet, era ali que os que não moravam no Rio tinham a oportunidade de conviver com um estadual que não o "seu". E o Cariocão da Band nos anos 1990, hoje, ganhou uma aura cult entre quem era moleque naquela época. Até hoje os bordões de Januário de Oliveira são lembrados por aí.
É claro que não dá para não condenar a realização constante de jogos às segundas-feiras. Nem só por uma questão de tradicionalismo, mas pelo próprio calendário - como as rodadas precisam acontecer nos fins de semana, não há como os jogos se fixarem apenas um dia depois. Mas o saudosismo que distorce, sempre ele, diz em algum canto que esses jogos no mesmo dia da Tela Quente não são tão errados assim.
É claro que futebol profissional numa segunda-feira é um negócio estranho. Mas para mim e outros da minha geração há algo familiar nisso. Porque na década de 1990 os jogos na segunda não eram tão raros assim.
O Campeonato Brasileiro de 1991, por exemplo, tinha regulares jogos às segundas-feiras. Era uma forma - acredito eu - de distribuir melhor as partidas e possibilitar mais transmissões pela televisão. Cabia à Bandeirantes exibir os confrontos. Lembro bem de um Santos 3x1 Sport, vencido pelo Peixe de virada, que o YouTube se encarregou de deixar claro que o jogo tinha se desenhado na minha memória correspondia à realidade (aliás, o que mais me surpreendeu ao rever os lances dessa partida é a qualidade - sem ironia - do gramado da Vila. Para mim, o relvado do Urbano Caldeira tinha sido um pasto permanente ao longo de todos os anos 1990, antes da reforma de 1996).
É claro que não dá para não condenar a realização constante de jogos às segundas-feiras. Nem só por uma questão de tradicionalismo, mas pelo próprio calendário - como as rodadas precisam acontecer nos fins de semana, não há como os jogos se fixarem apenas um dia depois. Mas o saudosismo que distorce, sempre ele, diz em algum canto que esses jogos no mesmo dia da Tela Quente não são tão errados assim.
segunda-feira, 20 de outubro de 2014
Pela autodeterminação das torcidas, ou: só o torcedor sabe o que se passa com o próprio time
Gols à parte, um dos lances que mais marcou o Palmeiras x Santos de ontem se deu aos 25 do segundo tempo, quando o placar registrava 3x0 para a equipe alvinegra: subitamente, após um lance que não teve resultado muito efetivo, a torcida palmeirense desandou - de forma espontânea - a gritar o nome de Valdivia. "Valdivia! Valdivia! Valdivia!"
A ode a Valdivia por parte dos palmeirenses é uma situação que pode soar estranha a quem não tenha o coração verde. Afinal, o que mais lemos sobre o chileno são as más notícias: expulsão gratuita; lesões e mais lesões; negociação tumultuada, com direito a atraso na reapresentação (e sumiço na Disney).
Mas ainda assim ele foi reverenciado - de maneira, volto a dizer, pra lá de espontânea. Os elogios se fizeram presentes também para além daquele grito. O jornalista Alex Müller, da Band News, e declaradamente palmeirense, falou no rádio e em seu perfil no Twitter: "Se o Palmeiras tivesse mais um Valdivia, estaria no G4". E o amigo Fabrício Vertamatti, que escreve aqui no Escanteio Curto, sempre ressalva que sem Valdivia a situação do Palmeiras estaria ainda mais delicada.
A contradição entre o senso geral sobre Valdivia e a opinião dos palmeirenses - que são quem sente na pele o que o chileno faz, pro bem e pro mal - sobre o jogador só não surpreende mais porque está longe de ser um fato inédito.
Lembro bem que os santistas viveram situação similar (mas trocando os sinais) com Kléber Pereira. Breve resumo da carreira do atleta no Santos: chegou no segundo semestre de 2007 e comeu a bola; em 2008, foi irregular, mas mesmo assim fazia seus gols e acabou como um dos artilheiros do Brasileiro; já em 2009, teve atuações pífias por quase toda a temporada, irritou os santistas e, quando deixou a Vila, saiu sem receber aplauso algum.
Ainda assim, quando santistas reclamavam de Kléber Pereira em 2009, recebiam reprimendas dos adversários. "Vocês estão doidos! O cara é matador! Queria eu ter esse 'problema' no meu time" era o tipo de réplica que mais se fazia presente. Enquanto isso, ao mesmo tempo que os outros torcedores enalteciam as virtudes do "artilheiro", os santistas se remoíam por ver um jogador desinteressado com a 9.
Mais um caso? Jorge Wagner no São Paulo. O lateral-meia esteve no Morumbi entre 2007 e 2010 e alternou boas partidas com outras extremamente preguiçosas. Mas, para quem não era são-paulino e não vivia o cotidiano do Morumbi, o que ficava na mente eram os melhores momentos dos jogos e uma impressão de que Wagner "ia bem na bola parada". Não importava o que os tricolores dissessem: para os outros, estava ali um bom jogador, talvez incompreendido pelos são-paulinos. Lembro de uma conversa com amigos tricolores que, ao ouvirem um elogio a Wagner feito por um torcedor de outro time, retrucaram de bate-pronto: "é só não-são-paulino que gosta do Jorge Wagner". Martelo batido.
A ótica de um torcedor sobre o próprio time costuma ser tratada de forma simplista e até mesmo babaca; volta e meia recorre-se ao grosseiro "o torcedor é passional" para explicar uma manifestação dos fãs. Acaba sendo, para a análise, mais cômodo ir por essa via do que ponderar o que realmente possa estar acontecendo. O fato é que, além de "passional", o torcedor de um time é bem informado sobre ele - e, via de regra, muito mais do que qualquer outra pessoa, a não ser que estejamos falando de um profissional ou um fanático inveterado por futebol, algo não tão comum assim.
Que a autodeterminação da corneta (ou do elogio) seja respeitada, pois.
PS: Ontem também tivemos mais uma morte resultante do confronto de torcidas - no caso, entre palmeirenses e santistas. Foi a terceira morte no ano, como informa a Folha de hoje. O incidente teve algo em comum com os anteriores: se deu longe do estádio (em agosto, um palmeirense morreu atacado por corintianos em Franco da Rocha e em fevereiro um santista foi assassinado por são-paulinos enquanto aguardava um ônibus na Radial Leste). Não sei, com base nessas evidências, como alguém ainda acha que torcida única pode trazer mais segurança aos estádios. Mais: como é possível que o mito "na numerada é mais seguro" ainda permaneça entre os torcedores comuns? Os torcedores brigam onde querem, infelizmente. E, às vezes, o interior do estádio acaba sendo o lugar mais seguro. É preciso mais inteligência para combater esse problema - grave, triste e duradouro.
A ode a Valdivia por parte dos palmeirenses é uma situação que pode soar estranha a quem não tenha o coração verde. Afinal, o que mais lemos sobre o chileno são as más notícias: expulsão gratuita; lesões e mais lesões; negociação tumultuada, com direito a atraso na reapresentação (e sumiço na Disney).
Mas ainda assim ele foi reverenciado - de maneira, volto a dizer, pra lá de espontânea. Os elogios se fizeram presentes também para além daquele grito. O jornalista Alex Müller, da Band News, e declaradamente palmeirense, falou no rádio e em seu perfil no Twitter: "Se o Palmeiras tivesse mais um Valdivia, estaria no G4". E o amigo Fabrício Vertamatti, que escreve aqui no Escanteio Curto, sempre ressalva que sem Valdivia a situação do Palmeiras estaria ainda mais delicada.
A contradição entre o senso geral sobre Valdivia e a opinião dos palmeirenses - que são quem sente na pele o que o chileno faz, pro bem e pro mal - sobre o jogador só não surpreende mais porque está longe de ser um fato inédito.
Lembro bem que os santistas viveram situação similar (mas trocando os sinais) com Kléber Pereira. Breve resumo da carreira do atleta no Santos: chegou no segundo semestre de 2007 e comeu a bola; em 2008, foi irregular, mas mesmo assim fazia seus gols e acabou como um dos artilheiros do Brasileiro; já em 2009, teve atuações pífias por quase toda a temporada, irritou os santistas e, quando deixou a Vila, saiu sem receber aplauso algum.
Ainda assim, quando santistas reclamavam de Kléber Pereira em 2009, recebiam reprimendas dos adversários. "Vocês estão doidos! O cara é matador! Queria eu ter esse 'problema' no meu time" era o tipo de réplica que mais se fazia presente. Enquanto isso, ao mesmo tempo que os outros torcedores enalteciam as virtudes do "artilheiro", os santistas se remoíam por ver um jogador desinteressado com a 9.
Mais um caso? Jorge Wagner no São Paulo. O lateral-meia esteve no Morumbi entre 2007 e 2010 e alternou boas partidas com outras extremamente preguiçosas. Mas, para quem não era são-paulino e não vivia o cotidiano do Morumbi, o que ficava na mente eram os melhores momentos dos jogos e uma impressão de que Wagner "ia bem na bola parada". Não importava o que os tricolores dissessem: para os outros, estava ali um bom jogador, talvez incompreendido pelos são-paulinos. Lembro de uma conversa com amigos tricolores que, ao ouvirem um elogio a Wagner feito por um torcedor de outro time, retrucaram de bate-pronto: "é só não-são-paulino que gosta do Jorge Wagner". Martelo batido.
A ótica de um torcedor sobre o próprio time costuma ser tratada de forma simplista e até mesmo babaca; volta e meia recorre-se ao grosseiro "o torcedor é passional" para explicar uma manifestação dos fãs. Acaba sendo, para a análise, mais cômodo ir por essa via do que ponderar o que realmente possa estar acontecendo. O fato é que, além de "passional", o torcedor de um time é bem informado sobre ele - e, via de regra, muito mais do que qualquer outra pessoa, a não ser que estejamos falando de um profissional ou um fanático inveterado por futebol, algo não tão comum assim.
Que a autodeterminação da corneta (ou do elogio) seja respeitada, pois.
PS: Ontem também tivemos mais uma morte resultante do confronto de torcidas - no caso, entre palmeirenses e santistas. Foi a terceira morte no ano, como informa a Folha de hoje. O incidente teve algo em comum com os anteriores: se deu longe do estádio (em agosto, um palmeirense morreu atacado por corintianos em Franco da Rocha e em fevereiro um santista foi assassinado por são-paulinos enquanto aguardava um ônibus na Radial Leste). Não sei, com base nessas evidências, como alguém ainda acha que torcida única pode trazer mais segurança aos estádios. Mais: como é possível que o mito "na numerada é mais seguro" ainda permaneça entre os torcedores comuns? Os torcedores brigam onde querem, infelizmente. E, às vezes, o interior do estádio acaba sendo o lugar mais seguro. É preciso mais inteligência para combater esse problema - grave, triste e duradouro.
quarta-feira, 8 de outubro de 2014
Brasil x Argentina na China
Em 2011, escrevi aqui um post falando sobre o Superclássico das Américas, entre Brasil x Argentina, e o tanto que aquele duelo tinha de coisas bacanas - jogos no Brasil e na Argentina (não em Londres ou Madri), fortalecimento de uma rivalidade, oportunidade na seleção para jogadores "locais", etc., etc...
Pois bem: depois daquilo, o Superclássico naquele molde teve apenas uma edição, em 2012. Não foi disputado em 2013 e, agora, será jogado... em partida única, na China, com jogadores que atuam na Europa.
Ou seja, o que tinha aparecido como uma boa oportunidade de ser um fôlego para a seleção brasileira e uma oportunidade para ampliar o vínculo entre torcedores e a amarelinha acabou virando mais um genérico "amistoso da seleção", como tantos que há ao longo dos anos, e que pouco entusiasmo despertam.
Algumas razões para a modificação são compreensíveis. A maior delas, o dinheiro. Além disso, o Superclássico no modelo 2011-2012, ao excluir os jogadores "europeus", nos tirava a oportunidade de ver Messi, Neymar e as outras maiores estrelas de Brasil e Argentina.
OK, OK. Mas será que, após uma Copa traumática, o vínculo entre torcedores e seleção será firmado com um jogo do outro lado do mundo? Será que a artificialidade desse tipo de duelo é mesmo do que precisávamos? E será que - e esse talvez seja o componente mais importante - vale a pena retirar jogadores do Brasileirão para jogar uma partida que não vale nada?
O Superclássico parecia um respiro. Mas acabou se tornando mais um caça-níquel irritante. E a antipatia para com a seleção só cresce.
Pois bem: depois daquilo, o Superclássico naquele molde teve apenas uma edição, em 2012. Não foi disputado em 2013 e, agora, será jogado... em partida única, na China, com jogadores que atuam na Europa.
Ou seja, o que tinha aparecido como uma boa oportunidade de ser um fôlego para a seleção brasileira e uma oportunidade para ampliar o vínculo entre torcedores e a amarelinha acabou virando mais um genérico "amistoso da seleção", como tantos que há ao longo dos anos, e que pouco entusiasmo despertam.
Algumas razões para a modificação são compreensíveis. A maior delas, o dinheiro. Além disso, o Superclássico no modelo 2011-2012, ao excluir os jogadores "europeus", nos tirava a oportunidade de ver Messi, Neymar e as outras maiores estrelas de Brasil e Argentina.
OK, OK. Mas será que, após uma Copa traumática, o vínculo entre torcedores e seleção será firmado com um jogo do outro lado do mundo? Será que a artificialidade desse tipo de duelo é mesmo do que precisávamos? E será que - e esse talvez seja o componente mais importante - vale a pena retirar jogadores do Brasileirão para jogar uma partida que não vale nada?
O Superclássico parecia um respiro. Mas acabou se tornando mais um caça-níquel irritante. E a antipatia para com a seleção só cresce.
quarta-feira, 1 de outubro de 2014
São Caetano na Série D: o futebol brasileiro é muito doido
Na última segunda-feira, com a vitória do Guarani sobre o Caxias, o São Caetano teve confirmado seu rebaixamento para a quarta divisão do futebol brasileiro, a famigerada Série D. É um destino inusitado para um time que, todos lembramos, foi bi-vice-campeão brasileiro e vice-campeão da Libertadores na década passada.
Porém, ainda que quase todas as análises sobre a derrocada do Azulão relembrem os feitos do time em tempos distantes, é preciso que esqueçamos a turma de Adhemar, Adãozinho e cia e lembremos que em 2012 - sim, isso mesmo, o ano retrasado - o clube do ABC só não voltou para a Série A do Brasileirão porque teve saldo de gols menor do que o Vitória, quarto colocado e contemplado com o acesso na segundona daquele ano.
Ou seja: um time que poderia perfeitamente estar na primeira divisão nacional em 2013 irá jogar a quarta em 2015.
O tombo do Azulão foi magistral e não ocorreu somente em nível nacional. No Paulistão, a equipe também foi rebaixada em 2013 e, em 2014, por pouco não descendeu à Série A-3. Pode-se dizer, sem medo de errar, que o time foi do "quase-céu" ao inferno de modo mais do que súbito, e tudo por conta de um saldo de gols.
O curioso é pensar que esse tipo de declínio abrupto não é um caso isolado do nosso futebol. Outros exemplos: o Vitória, em 2004, chegou a uma histórica semifinal de Copa do Brasil; no mesmo ano, caiu para a Série B do Brasileirão e, no ano seguinte, foi à Série C. O Guarani em 2012 fez bonito ao alcançar a decisão do Paulista e, na mesma temporada, caiu para a Série C nacional. E o Juventude amargou uma grande série de rebaixamentos no nível nacional, passando da Série A em 2007 para a Série D em 2011.
Quando times com menos camisa como São Caetano, Bragantino e Santo André atingem o fundo do poço, é comum pensarmos em causas estruturais e pensarmos que a situação não tem cura - e que a equipe permanecerá indefinidamente na letargia ou mesmo passará à extinção. Mas a história mostrou o contrário: o próprio Bragantino que sumiu no começo da década passada (após o 'surgimento' colossal nos anos 1990) ressurgiu bem e, se não é mais a potência nacional de outros tempos, hoje tem participação cativa na Série B e na elite estadual.
O fato e que essa sequência de tombos e ascensões é característica - ou melhor, é um reflexo - do nosso futebol, mal-estruturado e, por conta disso, imprevisível. Não é impossível imaginarmos um São Caetano bem montado nos anos seguintes e chegando novamente à Série B, por exemplo.
No fim das contas, acaba sendo um ponto positivo do caos que é a estrutura do nosso futebol.
Porém, ainda que quase todas as análises sobre a derrocada do Azulão relembrem os feitos do time em tempos distantes, é preciso que esqueçamos a turma de Adhemar, Adãozinho e cia e lembremos que em 2012 - sim, isso mesmo, o ano retrasado - o clube do ABC só não voltou para a Série A do Brasileirão porque teve saldo de gols menor do que o Vitória, quarto colocado e contemplado com o acesso na segundona daquele ano.
Ou seja: um time que poderia perfeitamente estar na primeira divisão nacional em 2013 irá jogar a quarta em 2015.
O tombo do Azulão foi magistral e não ocorreu somente em nível nacional. No Paulistão, a equipe também foi rebaixada em 2013 e, em 2014, por pouco não descendeu à Série A-3. Pode-se dizer, sem medo de errar, que o time foi do "quase-céu" ao inferno de modo mais do que súbito, e tudo por conta de um saldo de gols.
O curioso é pensar que esse tipo de declínio abrupto não é um caso isolado do nosso futebol. Outros exemplos: o Vitória, em 2004, chegou a uma histórica semifinal de Copa do Brasil; no mesmo ano, caiu para a Série B do Brasileirão e, no ano seguinte, foi à Série C. O Guarani em 2012 fez bonito ao alcançar a decisão do Paulista e, na mesma temporada, caiu para a Série C nacional. E o Juventude amargou uma grande série de rebaixamentos no nível nacional, passando da Série A em 2007 para a Série D em 2011.
Quando times com menos camisa como São Caetano, Bragantino e Santo André atingem o fundo do poço, é comum pensarmos em causas estruturais e pensarmos que a situação não tem cura - e que a equipe permanecerá indefinidamente na letargia ou mesmo passará à extinção. Mas a história mostrou o contrário: o próprio Bragantino que sumiu no começo da década passada (após o 'surgimento' colossal nos anos 1990) ressurgiu bem e, se não é mais a potência nacional de outros tempos, hoje tem participação cativa na Série B e na elite estadual.
O fato e que essa sequência de tombos e ascensões é característica - ou melhor, é um reflexo - do nosso futebol, mal-estruturado e, por conta disso, imprevisível. Não é impossível imaginarmos um São Caetano bem montado nos anos seguintes e chegando novamente à Série B, por exemplo.
No fim das contas, acaba sendo um ponto positivo do caos que é a estrutura do nosso futebol.
sexta-feira, 26 de setembro de 2014
Da neymardependência à lucaslimadependência: a comprovação de que há muita coisa errada no Santos
Entre o começo de 2012 e a fim do primeiro semestre de 2013, o Santos tinha um problema grave: a neymardependência. O time, treinado por um desinteressado Muricy e carente de outras opções de qualidade, passava jogo após jogo de forma desarticulada, sem criatividade, contando somente com os momentos de genialidade de seu craque. À época até se dizia que o esquema tático do Santos era o "TNN", sigla para "toca no Neymar". Tudo se resumia ao TNN. É claro que isso não daria certo, como realmente não deu.
O tempo passou, Neymar se foi, o futebol mudou e o Santos mais ainda, mas a dependência de uma figura só se mantém na Vila. Porém, hoje, o protagonista dessa situação não é mais um craque indiscutível como Neymar, e sim o valoroso, mas não genial, meio-campista Lucas Lima.
Aos números: Lucas Lima jogou todos - todos mesmo - os jogos do Santos nesse Brasileirão. Fez três gols (o mesmo número alcançado por Leandro Damião) e deu inúmeros passes de qualidade. É o oitavo melhor meio-campista do Brasileirão, segundo a Placar, e, também de acordo com a revista, foi o craque da 23a. rodada do campeonato, quando o Santos venceu o Figueirense.
Não restam dúvidas de que, hoje, Lucas é o jogador mais importante e aquele que tem a titularidade mais sólida no elenco alvinegro. Sim, até mesmo mais do que Robinho.
Ele alcançou esse status com méritos, claro. Mas está contando também com uma ajuda das circunstâncias para tal. Seja por falha do planejamento da diretoria ou por equívoco dos treinadores (tanto o atual Enderson como seu antecessor Oswaldo), o Santos não tem meio-campistas ofensivos que poderiam substituir Lucas ou mesmo compartilhar com ele a articulação. O time dispõe de um atacado de volantes (Arouca, Alan Santos, Leandrinho, Souza, Renato, Alisson) e de um batalhão de atacantes (Thiago Ribeiro, Robinho, Rildo, Geovânio, Damião, Gabigol, Stéfano Yuri, Diego Cardoso, Jorge Eduardo). No meio deles, o "exército de um homem só" chamado Lucas Lima.
E se quando a dependência de um atleta desembocava no Neymar a coisa não funcionou, não será com Lucas Lima que dará certo. O resultado é que o Santos se tornou um time mediano, não ruim o suficiente para se engalfinhar pelo rebaixamento mas distante de ter competência para honrar os santistas.
PS: Há que se ter cautela para cravar que um jovem jogador que já mostrou virtude está em má fase (e chega a ser irresponsável cravar que ele não presta). Mas quando as fracas atuações se repetem por cinco ou seis vezes consecutivas, pode-se ligar a luz amarela. Gabigol tem preocupado. Alguém se lembra qual foi último grande jogo dele?
O tempo passou, Neymar se foi, o futebol mudou e o Santos mais ainda, mas a dependência de uma figura só se mantém na Vila. Porém, hoje, o protagonista dessa situação não é mais um craque indiscutível como Neymar, e sim o valoroso, mas não genial, meio-campista Lucas Lima.
Aos números: Lucas Lima jogou todos - todos mesmo - os jogos do Santos nesse Brasileirão. Fez três gols (o mesmo número alcançado por Leandro Damião) e deu inúmeros passes de qualidade. É o oitavo melhor meio-campista do Brasileirão, segundo a Placar, e, também de acordo com a revista, foi o craque da 23a. rodada do campeonato, quando o Santos venceu o Figueirense.
Não restam dúvidas de que, hoje, Lucas é o jogador mais importante e aquele que tem a titularidade mais sólida no elenco alvinegro. Sim, até mesmo mais do que Robinho.
Ele alcançou esse status com méritos, claro. Mas está contando também com uma ajuda das circunstâncias para tal. Seja por falha do planejamento da diretoria ou por equívoco dos treinadores (tanto o atual Enderson como seu antecessor Oswaldo), o Santos não tem meio-campistas ofensivos que poderiam substituir Lucas ou mesmo compartilhar com ele a articulação. O time dispõe de um atacado de volantes (Arouca, Alan Santos, Leandrinho, Souza, Renato, Alisson) e de um batalhão de atacantes (Thiago Ribeiro, Robinho, Rildo, Geovânio, Damião, Gabigol, Stéfano Yuri, Diego Cardoso, Jorge Eduardo). No meio deles, o "exército de um homem só" chamado Lucas Lima.
E se quando a dependência de um atleta desembocava no Neymar a coisa não funcionou, não será com Lucas Lima que dará certo. O resultado é que o Santos se tornou um time mediano, não ruim o suficiente para se engalfinhar pelo rebaixamento mas distante de ter competência para honrar os santistas.
PS: Há que se ter cautela para cravar que um jovem jogador que já mostrou virtude está em má fase (e chega a ser irresponsável cravar que ele não presta). Mas quando as fracas atuações se repetem por cinco ou seis vezes consecutivas, pode-se ligar a luz amarela. Gabigol tem preocupado. Alguém se lembra qual foi último grande jogo dele?
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